Pião

O que tu me disse, Marina, reverbera. “Eu não tenho as ferramentas pra saber o que é a sua vida, só você tem. Eu não tenho ferramenta pra dar, não tenho o que dar. Só você tem.”

Minha ferramenta é escrever, é daqui que vem minha força, mesmo quando eu não escrevo, mas saber que posso, a qualquer momento, em qualquer explosão, arranjar as palavras pra sair do fogaréu. Ou pra entrar no meio do fogo, se for preciso. Já fui de pensar que a vida é um jogo de dados, sem previsão para fim de rodada, sem saber de quem são as mãos, às vezes sem mãos nenhuma, somente os dados atirando números uns contra os outros, e nós os reféns, dos números que são possibilidades, números que criam ausências, presenças, que definem o nome e sobrenome e telefone e endereço que alguém vai decorar e um dia: encontrar o amor. Mas ultimamente tenho visto a vida como um pião, que roda, roda, roda, aparece uma pedra, salta e continua rodando. E uma hora para, porque nenhuma energia vence o atrito. O sistema solar? É questão de tempo, o atrito está ali, mas as massas são grandes demais, a velocidade alta demais também. E um falso equilíbrio que mantém essa rota, aparentemente estável, confusamente diária, mensal, anual, milenar. Que besteira o querer definir esse movimento por quantidade de tempo. As posições mudando, e jamais sendo as mesmas. E essa mão, que segura o pião pelo topo de novo e bota pra rodar, de novo. E o giro mais forte, espalha a terra, perfura, sim, porque se reerguer dói, e a mão, essa pequena ação, é a energia primeira, e minha energia primeira, que é a sua energia primeira e a dele, é que faz o pião rodar, diferente, e toda vez que for necessário, e sempre.

Quem vê o pião cair, não sabe que há uma mão que o fez rodar, e que ele pode cair tantas vezes quanto sua ponta toca o chão de terra. E que isso nunca vai ser igual ao número de vezes que dá voltas, em si mesmo, em mim, na pouca vida, em pouco espaço.

O que tu diz ainda rodopia, Marina. Eu sei que tu acha que tua voz é pouca coisa, que não tem ferramentas pra dar. Mas seria impossível escrever, extrair forças da tela em branco, se não fosse por suas palavras que sempre reverberam no meu ouvido. A filosofia é uma prática diária que, não sei como, mas nos tira do ponto primeiro que o pião toca o piso. E a roda gira, mudando todas as perspectivas, mesmo estando no mesmo lugar.

Essa poeira que voa ao redor só pode ser fruto de peões batendo no chão, rodando depois de ter caído, ficando mais fortes, perfurando a planície calma e lisa, tirando as pedras do lugar, bloqueando a vista, sim, porque a beleza e a verdade não estão ao alcance dos olhos. O pó que bate na retina implora que vejamos pelos outros sentidos, que saiamos do lugar. A ânsia pelos esbarrões aumenta, a necessidade do devir, de não se saber do amanhã, de se imaginar mais do que aquilo que as imagens prontas nos dão.

O mundo que imagino passa pelo teu exercício diário, Marina. Não só os das manhãs na praia, três vezes na semana, mas teu exercício mental me move e eu acredito que você com seu pequeno pião pode fazer rodar o mundo.

 

 

 

 

Tu comigo forma um circo

sigo pensando em ti
e tudo que crio
tu comigo cria
porque tu deixa em mim
a semente que planta a paixão nos dias
faço poemas românticos
outros nefastos
faço também haikais
que amor as vezes é
três linhas suspensas,
um circo e
dois corpos líquidos
feito um riacho
saboreio a luz dos teus dentes
quando sorri pra mim (e pro mundo)
saboreio teus cantos
como se fossem discos raros
e tuas esquinas empoeiradas que guardam segredos
e teu corpo dançando
que faz o meu dançar junto
tu me faz ver a vida
com olhos de águia à noite
e com olhos de cão tu me olha
pedindo um abraço
te quis, amor, desde o início
e não sei dizer quando foi o início
a gota do mercúrio se espalhou rápido
roubo palavras da Matilde para expressar o que sinto
e como Benedetti vê sua mulher
te vejo no horizonte
e ​também no caminho
te seguro caminhando
e te deixo voando
te olho distante
e te desejo perto
te olho nos olhos
e sei que te amo
te quero hoje
e já te queria de antes
te quero amanhã
e tenho sempre saudade
te admiro em cada traço
e todo poema que faço
é só pra ver se te encanto
tanto quanto tu me encanta
a cada dia.

Miopia

Pode ser que eu precise de correção na vista, mas pode ser que não. Estou vendo o mundo bem pequeno, não sei se sou eu crescendo, ou se estou apenas me distanciando, quase a ponto de dizer que não sei opinar sobre mais nada. Está difícil apertar com firmeza os botões da verdade e estar pronta às perguntas! “Essa eu sei, quero responder!”, mas eu não quero, nem vou. Não tenho o que responder. A propósito das palavras de ordem, não sei o que gritar. Meu grito é uma reação sem voz, é uma proteção do que não quero perder, mas não sei o que quero ter, não consigo esticar meus braços para alcançar. Então eu fico aqui, e estou bem assim.

Conforto é morte, há tempos me convenci disso. Então você deve me perguntar: não é contraditório? E eu o respondo: e o que não é? Parte da lua está invisível hoje, e ela fez a noite muito mais bonita. Incompleta e ainda assim iluminando o dia que dorme. Descansando o sol. Eu estou nadando em poesia e isso, não sei como, me faz plainar para longe do mundo. Percebe como mudo de assunto? Fecho os olhos e já não me incomodo. Nada me espeta. Nada me acorda, permaneço sonhando um sonho impossível que de nada tem de concreto. Até que desperto.

Que susto! Já é meu ponto, sono constante nunca satisfeito, ligações não atendidas, projetos em andamento, cronogramas incompletos, dormi na metade do filme, não dá tempo de cozinhar, esquenta no micro-ondas, esqueci de ligar, não deu pra ir hoje, esqueci do seu aniversário, não perguntei sobre o seu dia, você não sabe como foi o meu, foi tudo bem, mas poderia não ter sido, poderia ter sido catastrófico e não ficaria sabendo, na verdade falaram uma coisa que me incomodou muito, engoli 5 sapos e estão todos com feridas na garganta de tanto engolir a seco, que música é essa que você anda ouvindo, quem é seu novo amigo, fiz contatos promissores e vãos, eu dei oi, eu dei tchau e disse até logo pra quem nunca mais vou ver, eu subi as escadas e caí, as pessoas riram, eu quero você por perto, eu sinto que quero te conhecer mais e não há tempo, que sufoco!, eu quero parar o mundo, a rotina me implode.

Não sei se já te disse isso, mas teus olhos me acalmam, tem o mesmo efeito do mar sereno. O corpo inteiro na água, a cabeça no vento e minha mente pousa num horizonte. Alguma linha de alguma montanha longe, é para lá que eu olho através. Você me devolve o tempo que parece perdido, em forma de pássaro que voa e aninha e que de tudo vê, experimenta e volta para casa depois. Vem aqui me abraçar para eu te sentir, tenho medo de um dia um caminhão passar e cortar a nossa vida. Bato três vezes na madeira e não é superstição. Às vezes penso viver uma fantasia e o que me faz sentir o sangue pulsante é ver as cores do carnaval e poder tocá-las. De todas as formas que não expressam tudo o que é o amor, essa é a que chega mais perto. Rotina não pode virar água parada e contigo, vivo num oceano sem bordas, sem limites, para onde se queira chegar.

Pode ser que eu precise corrigir minha miopia, mas olhando nos seus olhos o mundo não é tão pequeno.

Bombardeio mental

Sinto uma urgência de criar formas
de dizer tudo o que se passa por meus olhos
e que ninguém pode ver
um risco uma cor feito a linha
das montanhas ao fundo das cidades baixas
vistas da estrada alta
o pouso da noite
a primeira estrela no céu
e seu olho atravessando a onda do mar até mim

Preciso gritar pra fora do peito
expelir as palavras que me faltam
diante do imenso peso do tempo
desse imenso peso que nós mesmos damos
e criar mais formas de transver o mundo
deslapidar
aos poucos despir
até que seja(mos) outro(s)

Toda vez que o dia cai
essa certeza de que amanhã há outro
diferente, mas igual a todos os dias
pede que se pare o tempo!
que se abra uma porta!
uma ponte!
um túnel, que seja!
uma passagem que permita o voo
de criações que sem destruir
possam recriar o mundo

Se isso será possível
hoje ainda não o é
e por isso a urgência

E por isso meu grito
faz um eco no silêncio
de quebrar os muros do mundo!

As bombas não param de explodir

(Me pergunto a quem
cabe dar a elas outra direção…)

Cotidiano

Como estava de pé, pude ver dali umas 40 peças de roupa diferentes. Calças, saias, estampas, gente sentindo calor, gente sentindo frio. Pra quem está começando a se encaixar nessa rotina, essa coisa de ônibus lotado é bem chata, principalmente porque no decorrer dos dias, é comum deparar-se com pessoas que facilmente se corrompem com os fatores estressantes do dia-a-dia. Até a causa do mal que pessoas assim fazem a si mesmas é decomposta em culpas maiores, como a de morar numa cidade cujo transporte público é uma merda, a estação do inverno que se resume a uma estiagem que enxuga o ar, faz o pulmão tossir toda a poeira que vai acumulando de segundo a segundo na atmosfera do asfalto. Outra coisa chata de se acostumar é o tempo que se passa no trânsito, quando só se presta atenção ao trânsito, e as distâncias curtas que se transformam em longas corredores de automóveis e nem espaço nem cabeça pra ler tem.

Hoje mesmo nem conversar deu, porque o espaço entre você e seu amigo rapidamente é preenchido por outras tantas pessoas que brotam como pombos dos pontos de ônibus. Mais do que pombos, bem mais. Acontece que quando isso tudo me ocorreu, eu estava no auge da leviandade de não me importar com esses entroncamentos da rotina. Meus olhos pairavam sobre outros aspectos do dia. Assim, essa fase passou por mim como uma imagem vista da janela de um carro que atravessa uma cidade. Isso fica por conta da minha sorte de não ter detectores de espinhos na pele, nem sensores de pimenta malagueta na retina, somente o sabor da espuma dos dias, do mar que de vez em quando dava para enxergar ao longe e a memória das fotografias que me preenchia toda noite.

Mas um dia você está no ônibus, não pode ler, não tem fones de ouvido, já não conversa mais com estranhos porque assim aprendemos e vem aquela música. Meu amor, o que você faria se só lhe restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar, me diz o que você faria… A voz do Arnaldo Antunes ecoou na minha cabeça como sempre ecoa do início ao fim essa inebriante canção. Foi quando tive a sensação de tudo que é sólido tomar um aspecto translúcido e como se acabasse de ser presenteada com novas lentes e agora é não somente possível como natural ver a essência que faltava enxergar. A essência de estarmos aqui, entre bilhões de habitantes, termos nascido numa mesma época da história do mundo, entre 1980 e 2000 e no mesmo país, ainda por cima no Brasil, de vasto território que fala a mesma língua. A essência de se lançar dados que ninguém vê ou toca mas que fez o seis e o um estarem sobre a mesma mesa. São tantas as respostas possíveis para a pergunta dessa música porque nós somos tantos e somos tão pouco de muito do que podemos ser. Somos bem menos do que o amanhã pode fazer de nós e talvez sejamos só o que fomos até hoje porque o mundo poderia acabar agora. E o meteoro que vem, sem hora nem aviso para chegar pode ser a morte do seu melhor amigo pode ser você perdendo o movimento das pernas, pode ser você tendo um imprevisto que mudou a sua vida e daí você pensa em renascer. E seus últimos minutos já serão outras e suas respostas também. Novos hábitos te fazem ser outro.

O tempo tão volátil e tão espesso ao mesmo tempo. Somos combinações de pontos infinitos dentro de uma circunferência, indeterminados, sem ter uma reta para conectar um ponto ao outro. Nossa matemática não é cartesiana e é preciso apreender outras dimensões. Algumas contas deixam restos que não posso ignorar. O abstrato contém realidades que não ousamos compreender. E eu poderia ter só contato 40 peças de roupa diferentes e o número de pessoas dentro do ônibus. Seria suficiente pra mostrar o quão diverso é o cenário do cotidiano, mas não estou aqui pra fazer contas, bater ponto e voltar para casa cansada. Por isso jogo a matemática no ralo e escrevo meus pensamentos em resposta a essa música que aliás já não ouço mais como uma pergunta. Perguntas são transitivas demais e não quero a ânsia de concluir um devaneio que só de existir me fez existir um pouco mais nesse fim de tarde.

É música mesmo, o que enxergo, ouço e sinto nesse ônibus. É uma dor coberta prestes a explodir e essa cena me move como movem os quadros que vi na aula de História da Arte. É sobre não ter o que falar e conter mil palavras no peito que caminham comigo. É a reação a um impacto na forma de se abrir, se envolver e se extasiar, porque somos só um ponto muito pequeno. É uma respiração inesperada e calorosa, é um voyeurismo das peças de arte do cotidiano. É assistir a um iminente acidente e de súbito sermos nós as vítimas.

Não é sobre se diluir no cotidiano e se esquecer. É estar de pé, diante do perigo, ao lado do inimigo, no meio da multidão encontrar abrigo. É não desejar por proteção.

Me and mr. jones

I watch you roaming around
looking at me distantly and coming over
time to time
as I dive my head into your chest
searching for something like a warm bed

eu poderia te falar das palavras cor de violeta, mas sinto que há mais por dizer para além das coisas belas. há mais por dizer para além do que te diz meu sorriso e meus olhos, pra além dos meus gemidos no seu ouvido, para além de quando falo teu nome e há mais sempre por dizer, porque não consigo verbalizar tudo.

It’s probably not what you expect from me
to be writing to you
but that’s what I’ve been thinking
and I can’t no longer hold it in
my wills go beyond undressing your body
and dancing through for only one night

eu te chamo de garoto quando você me beija o pescoço de surpresa e roça seus dedos em mim em lugares proibidos. é meu jeito adolescente de amar, impulso que não ouso interromper, uma sede de viver, isso não vai parar. mas preciso te dizer que no fundo me vejo mulher e vejo o homem que quero em você. isso não é sobre ser adulto, que se foda ser adulto, não sei se você me entende.

It’s about me and mr. jones
and nobody standing in between me and my man
cause it’s me and mr. jones
I wonder if you want it to be me and you
for how long, I wonder too

eu poderia dizer isso cantando no seu ouvido e te fazer querer me deixar nua, só que não é só sobre isso. o amor é uma palavra forte e receio dizê-lo em voz alta, mas já que aqui estou, seu amor carrega pra perto a terça de carnaval que não terminou e o tempo lento de uma tarde de filmes e café. você alterou todos os meus itinerários e não quero pensar na minha rotina sem encaixar você.

I don’t know if it’s time to tell all this
still I’ve got to know you
and you got to know me
but don’t we have a whole time for that?

tudo isso pra dizer que até o sono interrompido é aconchegante contigo. que quero mais segundos infindos nos seus olhos, e mais tempo de você dentro de mim. que quero sentir seu sabor nos dias, quero mais do que posso tocar agora. e não sei por quanto tempo. sei que te quero e queria ter a sorte de você me querer também. 

The thing is: how can I bet on you
and give to you my love
if you don’t give me the answers
for questions that echoes in my mind
uncertainty and doubts

eu não estou acostumada com amores longos, há tanto por viver, tanto por ver. sou um pássaro que pousa às vezes num ninho. quero asas para voar comigo, pra não sumir sem sobreaviso, pra encarar as estações e migrar de norte a sul.

I can see a bird in you
a kind of strong colored bird
that flies through my stomach
and don’t let me forget
the thrill of a first flight

e então, você vem comigo?